Para chegar a São Pedro de Atacama, no norte do Chile, é necessário pegar um vôo para a cidade de Calama, na região de Antofagasta. É uma região desértica, no meio do nada. Do avião, o cenário é o Oceano Pacífico a sua esquerda, o deserto abaixo e uma grande cordilheira à direita, com vulcões de até 6000 mts de altura.

Chegamos no fim da tarde, no aeroporto de Calama, e para chegar a São Pedro é necessário pegar uma van, para cobrir a distancia de 100 quilômetros. No caminho, entramos cada vez mais no deserto e subíamos no inicio da noite, em direção leste a cordilheira dos Andes. No escuro, entramos em São Pedro, as ruas sem calçamento…uma cidade parada no tempo. São Pedro é uma cidade de 3500 hab, a 2500 mts de altura, um oásis no deserto.

No outro dia já cedo, saímos para o Salar de Atacama e as Lagunas Altiplânicas. O Salar é um enorme deserto de sal, pontilhado por lagoas formadas por água do degelo das montanhas, que brotam da superfície. Ao largo das lagoas, uma fauna que resiste ao sol intenso e ao sal. Flamingos cor de rosa, outros pássaros e até pequenos répteis, vivem em uma área inóspita. À frente, os vulcões da Cordilheira, destacando o Licancabur (o maior da região, inativo, com 6100 mts) e o Lascar (o mais ativo do Chile, com fumarolas no topo e 5600 mts).

Saindo do salar, subimos em direção aos Andes, passando por povoados com menos de 500 hab (Toconao) e chegamos ao Altiplano Chileno, um planalto, onde a altitude está sempre acima dos 4000 mts. Cruzamos um passo, e a 4350 mts, chegamos as Lagunas.

A cor da água, da vegetação, o contraste com o céu azul, as vicunas (parentes das lhamas e guanacos) e os zorros (pequenas raposas), caminhando livremente, sem temer a presença humana. Ao fim do dia, voltamos a São Pedro, e caminhamos pela calle Caracoles, com suas lojinhas e restaurantes típicos e fascinantes. Ruas de chão, viajantes de todo o mundo, e vários cães com cor de terra. São Pedro é única, e especial.

No terceiro dia, fomos em uma pequena excursão, com mais duas meninas da Alemanha, para as lagoas da Bolívia. Poucas pessoas fazem este roteiro, acredito que porque ficam poucos dias no Atacama, mas como iríamos ficar uma semana, arriscamos a aventura. Começou já na fronteira, quando um soldado veio gritando dizendo que o General havia fechado as fronteiras e ninguém podia mais sair. Com a cara de susto de todos (havia vários grupos entrando) ele começou a rir…

Foi nos oferecido um café da manha, mas impossível de comer, devido a não liberação pela vigilância sanitária pessoal. E ainda por cima, o único banheiro era atrás de um bloco de pedras. Pelo menos a paisagem era única…

A 3 quilômetros da fronteira, nossa primeira parada. A Laguna Verde…incrivelmente verde.

Seguimos para o interior da Bolívia, e uma paisagem impressionante se descortinava. Cada vez mais, as montanhas, pedras, toda a superfície se tornava uma réplica do planeta Marte (para quem não sabe sou nas horas vagas astrônomo amador. Já fui bem mais atuante…ehehe).  Então, chegamos a um pequeno balneário, uma fonte termal, bem quente, para relaxar e aguardar nosso precioso almoço. A mesma vigilância não liberou o almoço, mas comemos uma garfada de macarrão com ketchup e um refrigerante quente. Se posso sugerir algo a um futuro viajante é que não deixe de fazer este incrível passeio, mas leve comida. Levamos apenas água (isso é impossível de não levar. Na verdade em qualquer momento tenha no mínimo duas garrafas de água mineral – cuidado com a cólera). A terceira parada, no inicio da tarde, foi nos gêiseres, com lama fervendo e enxofre no ar.E isto a cerca de 5000 mts de altura!!! E enfim, por volta das 3 e meia, avistamos nosso objetivo, a cerca de 150 quilômetros da fronteira, a Laguna Colorada.

O nome é devido à cor da lagoa – vermelha. Isso mesmo, vermelho, devido à coloração de bactérias presentes na água. Milhares de flamingos cor de rosa, um vento intenso. Um dos lugares mais fascinantes que já estive. Apenas estando lá para acreditar…

No retorno, o pneu do carro furou e por muito pouco, não chegamos na fronteira com ela fechada. Imagina nossa angustia de chegar…

No quarto dia, estivemos nas termas de Puritana, um rio com piscinas de águas termais, a cerca de 40 C.

À tarde, passeamos pela primeira vez pelo centro da cidade, e a noite, fizemos um passeio de observação do céu, com um astrônomo francês que reside no local. O céu do Atacama, é um dos melhores que existem, pela altitude e por que é o deserto mais seco do mundo, e é praticamente rara a presença de uma única nuvem no céu.

No quinto dia, pela manha fomos caminhando até um povoado histórico, a 3 quilômetros da cidade, chamado de Pukara de Quitor. São ruínas de um povoado, destruído quando da invasão espanhola, por volta de 1750.  Incrível é pensar como as pessoas moravam ali, sem recursos e sem o acesso que temos hoje.

A tarde, em mais uma excursão, fomos a Laguna Cejas, dentro do salar, onde a concentração de sal impede o corpo de afundar.  A água muito gelada, mas a laguna incrível. Ao sair da água, o guia nos dá um banho de água mineral, mas mesmo assim fiquei até a noite com a pele branca de sal. Ao final do dia, esperamos o por do sol em outra bela laguna dentro do salar.

No sexto dia, as 4 hs da manha, entramos em nossa excursão que nos levaria aos Gêiseres del Tatio. Os Gêiseres ficam a 4800 mts de altura, dentro da boca de um vulcão, e estão ativos apenas pela manha bem cedo, quando a diferença de temperatura da noite, começa a sofrer impacto pelos raios de sol, o que libera a força do interior, lançando jatos de água fervente a vários metros de altura.

Tomamos café da manha, com ovos cozidos dentro da água fervente do vulcão e com vicunas passando ao nosso lado. No retorno a cidade, passamos por um pequeno vilarejo, onde vivem apenas 15 pessoas.

Lhamas pastando, em um pequeno vale, com um córrego e gelo nas bordas. Perdizes na encosta e até mesmo um incrível coelho meio verde-amarelado (que esqueci o nome).

No sétimo dia, para nos despedirmos do deserto, no final da tarde, fomos à excursão ao Vale da Luna, uma incrível paisagem, que se assemelha um pouco a lunar. Caminhamos com o pôr do sol sobre uma enorme duna a 3000 mts, admirando a paisagem dos Andes que mudavam de cor com os últimos raios de sol, até um incrível rosa-lilás.

Recomendações

Por ser uma região distante, de difícil acesso, o Atacama é relativamente mais caro do que outros locais no Chile. Assim, vá preparado. Leve dinheiro, de preferência cheques de viagem.  Em São Pedro é possível fazer câmbio, e os locais aceitam dólares, euros ou pesos chilenos. Alguns não aceitam cartões de crédito, e as excursões podem ser compradas nas diversas agências de turismo na cidade. Para a Bolívia, apenas 2 agências de bolivianos fazem o passeio, e afora a questão da alimentação é seguro (apesar da cara das agências). Existe um passeio de 3 dias dentro da Bolívia, que vai até o Salar de Uyuni. Vi algumas fotos e parece fantástico, mas teria que ter mais dias.

Cuidado com a comida. Avalie os locais de alimentação (por causa da água). Leve sempre muita água mineral aos passeios. Não esqueça o protetor solar, bonés e roupas de frio, porque ao entardecer esfria muito rápido. À noite, em setembro, a temperatura caia para zero ou dois graus. De dia fazia 20 graus em média. Não chove nunca.

Para ir a São Pedro comprei apenas a passagem aérea. O resto, pode ser escolhido por lá. Existem 3 empresas que voam de Santiago a Calama (com escala em Antofagasta) – a Lan Chile, a Aerolineas del Sur e a Sky Airlines.

Vale a pena ir ao Atacama.

Sugiro a todos que “ganhem” uma semana de suas vidas, perdidos no deserto. Qualquer duvida, me contatem…