Tive a enorme oportunidade de visitar um dos lugares mais fascinantes do mundo – a Ilha de Páscoa. Desde a chegada na Ilha, e em cada um dos quatro dias que lá fiquei, vivi momentos incríveis. E o que vi, e vivi depois destes dias, e principalmente, ao me despedir, ficou o sentimento de grande responsabilidade, de partilhar com meus amigos a história, a grandiosidade, o nascimento, glória e morte de uma civilização. Uma história que começou a cerca de 1500 anos, e que hoje ainda, e mais do que nunca é tão atual.

Uma história de sobrevivência, onde o principal inimigo éramos nós mesmos…

O que mais me marcou foi que ali, no mesmo local, diferente de outros lugares que se vê monumentos antigos, estava escancarado por todos os lados, o nascimento, o auge e o declínio de um povo.

Cheguei em Páscoa no inicio da ultima primavera, em um dia com sol e nuvens, chuviscando. Depois de mais de 5 horas de vôo desde Santiago, sobre um Oceano Pacifico imenso, sem ver nada além de um oceano azul, uma porção de terra apareceu ao lado da aeronave, quando sobrevoamos a Ilha para pousar. Vi pela primeira vez o Vulcão Rano Kau, o maior e um dos três principais que a milhares de anos formou a ilha de formato triangular no meio do Pacifico. Páscoa fica a cerca de 4.000 Km da América do Sul e a 3.000 do Tahiti.

Em rapanui, o idioma local, é denominada Rapa Nui (ilha grande), Te pito o te henúa (umbigo do mundo) e Mata ki te rangi (olhos fixados no céu). Em 5 de abril de 1722, o explorador holandês Jacob Roggeveen atravessou o Pacífico partindo do Chile em três grandes navios europeus, e após 17 dias de viagem desembarca na ilha num domingo de Páscoa, daí o seu nome, que permanece até hoje.

Na pré-história humana, até 1.200 a.C, a expansão polinésia é contada como uma das explorações marítimas mais dramáticas. Povos vindos do continente asiático – agricultores, navegadores, aparentemente originários do arquipélago de Bismark, a noroeste da Nova Guiné, atravessaram quase dois mil quilômetros de mar aberto, a bordo de canoas, para atingir as ilhas da Polinésia Ocidental de Fiji, Samoa e Tonga. Os polinésios, apesar da ausência de bússolas, instrumentos de metal e escrita, eram mestres da arte da navegação e da tecnologia de canoas à vela. Seus ancestrais produziam uma cerâmica conhecida como estilo lapita.

Historiadores acreditavam que as ilhas polinésias foram descobertas ao acaso. Hoje, porém, há fortes indícios de que, tanto as descobertas quanto a colonização foram planejadas por viajantes que em uma incursão predeterminada, navegavam rumo ao desconhecido. A rota mais provável para a colonização de Páscoa deve ter sido a partir das ilhas de Mangareva, Pitcairn e Henderson, as duas últimas funcionando como trampolins visto que uma viagem direta de Mangareva à Páscoa dura cerca de 17 dias, principalmente transportando produtos essenciais para a sobrevivência da colônia. A transferência de muitas espécies de plantas e animais – de taro a bananas e de porcos a cachorros e galinhas, não deixam dúvidas sobre o planejamento da ocupação de Páscoa pelos seus colonizadores.

É incerta a data de ocupação de Páscoa, tanto quanto é incerta a data de colonização das ilhas polinésias. Publicações sobre a ilha de Páscoa registram sua possível ocupação entre 300-400 d.C., com base em cálculos de tempo a partir de divergências lingüísticas – técnica conhecida como glotocronologia, e em datações radiocarbônicas de carvão, além de sedimentos lacustres.

No período 600-800 d.C. (as datas exatas ainda são objeto de discussão) as ilhas da Polinésia Oriental (Cook, Sociedade, Marquesas, Austrais, Tuamotu, Havaí, Nova Zelândia, Pitcairn e Páscoa) foram colonizadas. Datações radiocarbônicas mais confiáveis – obtidas através de amostras de carvão e de ossos de golfinhos – que serviram de alimento para seres humanos – extraídas das mais antigas camadas arqueológicas, oferecem prova de presença humana na praia de Anakena. A datação dos ossos de golfinhos foi realizada pelo método EMA (Espectrometria de Massa com Acelerador). Estima-se, portanto, a primeira ocupação de Páscoa em algum tempo antes de 900 d.C. Por volta de 1.200 d.C. os polinésios expandiam suas rotas até Nova Zelândia, completando a ocupação das ilhas habitáveis do Pacífico.

Há evidências de que os insulares de Páscoa eram típicos polinésios, vindos da Ásia em vez da América. Sua cultura (incluindo os moais) saiu da cultura polinésia. Falavam um dialeto polinésio oriental relacionado ao das ilhas do Havaí e das Marquesas (semelhante ao dialeto conhecido como antigo mangarevano). Seus instrumentos (arpões, anzóis, enxós de pedra, limas de coral) eram polinésios e assemelhava-se a antigos modelos das ilhas Marquesas. Muitos de seus crânios apresentavam uma característica polinésia conhecida como “mandíbula oscilante”. Amostras recolhidas de 12 esqueletos enterrados nas plataformas foram analisados e todos possuíam “(…) uma deleção de nove pares de bases e três substituições de bases presentes na maioria dos polinésios (…)”. Este estudo de DNA comprova que duas dessas três substituições de bases não ocorrem nos nativos americanos, contrariando a tese do explorador norueguês Thor Heyerdahl de que a ilha de Páscoa fora colonizada através do Pacífico oriental, por sociedades indígenas avançadas da América do Sul.

A data da chegada dos primeiros habitantes como visto acima é um tanto imprecisa. Provavelmente por volta de 600-800 DC, os primeiros habitantes chegaram. A sociedade era dividida em 12 clãs, e o governante era o rei. Cada um dos 12 clãs recebeu uma porção de terra que ia aproximadamente do centro da ilha até a costa, fatiando as terras como pedaços de pizza. Na porção interior de cada território ficavam as casas dos nobres, sendo que o povo residia próximo à costa, em casas que se assemelham a botes invertidos. A maior parte dos historiadores avalia que não havia muitos conflitos, pois diferentemente das demais ilhas da polinésia, a geografia da ilha, plana e sem grandes vales ou montanhas, permitia o livre acesso e contato entre os diversos clãs.

De certa forma também é incerta a data e a razão inicial para a construção dos Moais. A cultura de construção de estátuas de pedra e madeira esta presente em diversas ilhas da Polinésia, como nas Marquesas e em Pitcairn.

Cada clã iniciou a construção de suas estátuas, cujo objetivo era lembrar o antepassado dos monarcas de cada tribo (as estátuas possuem unhas grandes e abdômen proeminente, características de indivíduos abastados), proteger o grupo e também servir de inspiração religiosa e de controle do grupo.

Encosta do Vulcão Rano Raraku – dezenas de Moais em construção

     

Moai ainda entalhado na rocha – Vulcão Rano Raraku

Na medida que as estátuas eram construídas (apenas um local da ilha, na porção sudeste – o vulcão Rano Raraku, possuía a qualidade de pedra para a construção, e todas as estatuas foram construídas nas paredes do vulcão e transportadas para os diversos setores da ilha), talhadas na pedra vulcânica, e arrastadas por vezes dezenas de quilômetros até o seu local definitivo, pode-se perceber o processo de trabalho em grupo e a necessidade de dezenas de indivíduos trabalhando no processo. O local definitivo do Moai era acima de uma plataforma (altar)  de pedra – chamada de Ahu – local sagrado e que até hoje não é possível tocar ou subir. Todo este local era palco de cerimônias religiosas, políticas e de cremação de mortos, sendo considerado um Tapu (daí a origem da palavra Tabu).

Praia de Anakena – Moais sobre o Ahu

Para se transportar os Moais dezenas de quilômetros, os habitantes da ilha precisavam de muita madeira, para fazer as rampas e colocar por baixo, e deslizá-los. Com o passar dos anos, as estátuas foram ficando cada vez maiores, na medida que surgiu uma certa competição entre as tribos. Mais e mais trabalhadores foram sendo designados para a construção, mais árvores foram derrubadas, menos sobrava pessoas para cuidar da agricultura e pesca. Por volta de 1500, estima-se que havia entre 15.000 a 30.000 habitantes (lembrar que hoje a ilha tem cerca de 3.500 moradores). A Ilha de Páscoa tem um índice pluviométrico muito menor do que as outras ilhas do Pacifico, por não estar muito próxima do Equador. Isto também torna o seu oceano muito frio, tornando habitável para um menor numero de espécies de peixes e habitantes do mar. Também a temperatura da água impede a formação de recifes de coral, contribuindo com a baixa quantidade de espécies marinhas. O solo vulcânico da ilha absorve muita água da chuva, reduzindo ainda mais a quantidade de água doce disponível. Todas estas características, somadas a explosão populacional, e a devastação do habitat, atingiu um ápice. Todas as árvores da Ilha foram derrubadas. A temperatura (pela falta de cobertura vegetal) aumentou e o pH do oceano próximo se alterou, causando o desaparecimento das poucas espécies marinhas, incluindo ai o Atum. A agricultura estava também em declínio.

Todas estas razões, especialmente a fome que se sucedeu, causou o inicio de conflitos tribais. Cada tribo passou a derrubar os Moais de outras tribos, e até mesmos os seus próprios, na medida que seus deuses não estavam mais ajudando.

Moai derrubado de seu Ahu (altar)

A 5 de abril de 1722, o explorador holandês Jacob Roggeveen atravessou o Pacífico partindo do Chile em três grandes navios europeus, e após 17 dias de viagem desembarcou na ilha num domingo de Páscoa, daí o seu nome, que permanece até hoje. Em seus relatos de viagem, o capitão descreveu a Ilha, a maior parte das estátuas estava de pé.

Quando o Capitão Cook chegou na Ilha em 1774 (apenas 50 anos depois) em sua breve visita de apenas quatro dias, apenas uma minoria de estátuas ainda continuava sobre os altares de pedra.

A crise desencadeada e a redução populacional subseqüente fizeram surgir uma nova religião: o mito do homem-pássaro. Na parede da cratera do vulcão Rana Kau, próximo hoje a única vila da Ilha (Hanga Roa) foi criado um vilarejo – Orongo – onde os habitantes celebravam anualmente a cerimônia e a competição do homem pássaro. Neste momento, os jovens mais fortes de cada tribo (tinham cerca de 17 anos) competiam entre si, descendo o despenhadeiro de 300 metros de altura, nadavam até as Ilhas Motu e traziam na cabeça um ovo de pássaro sagrado, que vivia nas ilhas. Vários morriam, devido à descida, ao oceano, tubarões e a subida. O primeiro que chegava era o vencedor e o seu chefe de tribo se transformava em Homem Pássaro, sendo o líder político durante o próximo ano.

O Rongorongo foi o sistema de escrita dos povos da Ilha que, apesar de diversas tentativas, ainda não foi completamente decifrado. A maioria dos especialistas em Páscoa conclui que a invenção do rongo-rongo foi inspirada pelo primeiro contato dos insulares com a escrita (desembarque espanhol de 1770). A escrita era conhecida apenas por uma parte nobre da população.

Em 1805 – ano mais sombrio da história de Páscoa – duas dúzias de navios peruanos seqüestraram a metade da população (1500 Pascoenses), o rei e os nobres, e os venderam em um leilão para trabalho escravo nas minas peruanas de guano. A maior parte morreu nas minas, ou por doenças. Os poucos que voltaram posteriormente, pela pressão política, trouxeram também doenças para a Ilha, o que contribuiu para reduzir ainda mais a população, e a escrita se perdeu.

Em 1888, o governo chileno, depois da Guerra do Pacífico, anexou Páscoa, que se tornou uma fazenda de ovelhas administrada por uma empresa escocesa estabelecida no Chile. Os insulares, todos eles, foram obrigados a trabalhar para a empresa contra o pagamento de bens e víveres. Em 1914, os insulares se revoltaram contra a exploração escrava, porém foram dominados com a chegada de um navio de guerra chileno. Somente em 1966 os insulares se tornaram cidadãos chilenos.

Hoje toda esta história está espalhada pela Ilha de Páscoa. A cratera do Vulcão Rano Raraku, com suas dezenas de Moais ainda entalhados na rocha, em diversas etapas de construção, nas dezenas de estátuas derrubadas em todos os cantos da ilha, aos pés de seus altares, ou ainda em Tongariki ou na praia de Anakena, onde as estátuas foram erguidas no ultimo século, e dão a dimensão da glória e incrível capacidade daquele povo. Vê-los de pé é algo único, que impressiona e desafia a capacidade humana de lógica.

 

  

 Tongariki vista de 3 ângulos – impressionante…

 A história dos Rapanui parece causada pelo seu isolamento, pela sua incompreensão de que causar danos ao meio-ambiente em última análise também causa dano ao homem. Em algum momento de sua história, eles cruzaram uma linha de destruição do seu meio, e certamente não perceberam que estavam causando a sua própria destruição. É possível imaginarmos o rei, amparado por algum mago, acalmando o seu povo em uma cerimônia, que a falta de comida e água seria apenas temporária. Que algumas pessoas que falavam ao contrário estavam erradas.

Imaginemos o que se passou na cabeça deste povo, quando a ultima árvore foi derrubada…Parece tão óbvio, a necessidade de não fazê-lo… E tudo isso, parece tão próximo de nós hoje…Quando o líder da grande nação de nosso planeta fala que o aquecimento global é uma falácia, fruto da ciência terrorista. Quando desmatamos todo o planeta, exterminamos espécies inteiras, lançamos na atmosfera toneladas de carbono, todos os dias.

Também estamos isolados. Também habitamos uma ilha. Até o presente momento, ainda que estatisticamente improvável devido às imensas dimensões do Cosmo, única em capacidade de suportar a vida. Nosso planeta é uma frágil ilha, perdido num canto escuro de nossa galáxia. E assim como os Pascoenses, ninguém virá nos salvar… de nossa ignorância…de nós mesmos.

O que podemos fazer?

Podemos fazer muito, todos os dias. Podemos mudar velhos hábitos.

  • Mude todas as lâmpadas de sua casa por lâmpadas fluorescentes;
  • Use menos o seu carro sempre que possível. Divida com alguém. Quando for trocar de carro, prefira veículos Flex, e com baixa potência. Verifique sempre os pneus;
  • Recicle sempre;
  • Use papel reciclável;
  • Use menos água quente;
  • Reduza a utilização de sacolas plásticas e se possível, use apenas de pano;
  • Desligue aparelhos elétricos e apague lâmpadas quando não estiver no ambiente;
  • Se possível, instale aquecimento ou iluminação solar ou eólica;
  • Vote em políticos que tem plataformas pela preservação, e estimule a discussão sobre redução de custos ou incentivos para o aquecimento solar/eólico;
  • Discuta estas ações com as crianças;
  • PLANTE ÁRVORES. MUITAS…

É possível que ainda tenhamos alguma chance de manter nosso futuro como espécie, e pelo bem de todas as outras.