cruzando a fronteira – chegando a Portillo

Portillo é um lugar incrível, e para a minha surpresa a Laguna Del Inca estava congelada. Aliás, tudo estava soterrado por metros de neve e caminhamos até o hotel para nos instalarmos para nossa primeira noite na cordilheira. O hotel estava fechado, assim como as pistas de ski, mas havia cabanas ao lado que poderíamos ficar, o que foi até melhor, porque para chegar na cabana tínhamos que atravessar um enorme campo de neve e gelo. Quarto quentinho, calefação ligada e uma taça de vinho, olhando as montanhas. A vontade era de ficar ali para sempre…

trator retirando o excesso de neve – em frente Laguna Inca congelada

Saí logo e fui fazer um boneco de neve. No inicio pensei que seria complicado, mas até que não foi tão ruim, exceto pela dor do frio nas mãos. Mas o gatinho ficou perfeito, e depois de umas varetas, ganhou olhos e bigodes. Não podia ficar no quarto e fomos caminhar em volta. Subimos uma pequena montanha, onde fica uma inclinada pista de ski. Um passo de cada vez, a 3000 mts de altura, sem botas de gelo, não era muito fácil e após enfiar o pé mil vezes no gelo até o calcanhar, chegamos na parte mais elevada e ganhamos uma vista incrível do hotel, das pistas e da laguna. Que lugar incrível, cercado por montanhas nevadas. Parecia um quadro…

visão de Portillo do alto de uma montanha

No outro dia tomamos café com uma paisagem indescritível…Não dava vontade de ir embora, mas tínhamos que encarar o caminho até a Capital Santiago e a descida dos caracolles. A quantidade de caminhões era incrível e as curvas fantásticas. Fomos descendo rapidamente e do lado chileno, percebemos a grande diferença. Árvores e vegetação por todo lado, fruto da umidade do pacifico. Nos afastávamos das montanhas, mas sempre olhando para trás, fomos em direção a Santiago, até chegar perto da hora do almoço.

descida dos Andes – caracolles

Após apenas 1 noite, saímos correndo em direção as montanhas novamente, sem antes parar para abastecer o carro e tomar um café de verdade. Subimos as montanhas, passamos por Portillo e novamente a Aduana. Pronto, mais uma vez pensei. Mas os chilenos estavam loucos que saíssemos do país e não levou 2 minutos…A Aduana da Argentina era depois do túnel e fomos de novo cruzá-lo. Na véspera tivemos a idéia de ir bem cedo para tentar subir até a estátua do Cristo em Las Cuevas, que fica no topo do cerro Cristo Redentor, a 4200 mts de altura.

mais um dos túneis que cortam os Andes no caminho Santiago – Mendoza

No verão é um ponto de aclimatação para quem está subindo o Aconcágua e decidimos tentar subir, mesmo com o gelo. Chegamos em Las Cuevas por volta das 11 horas e perguntei a um senhor próximo ao hotel onde ficava a trilha ao Cristo. O mesmo me disse que naquela época do ano era um pouco complicado, pela grande quantidade de gelo no caminho, o que nos obrigaria a usar botas de neve. Além disso, a trilha era apenas visível no verão, quando a neve derretia. Mas havia um grupo do exército argentino que estava subindo há algumas horas e podíamos vê-los a distância, já na parte alta da montanha. Pensamos um minuto apenas e decidimos tentar até onde desse para subir. Estava tão perturbado com a idéia que quase não peguei o casaco da North Face. Não levamos mochila, comida, água ou roupa reserva. Levamos apenas a máquina fotográfica, os casacos e luvas. Fomos sem botas especificas para gelo, apenas de tênis e bota de caminhada.

início do campo de gelo

Saímos do hotel, sobre um campo de gelo enorme em comprimento e em largura. Depois de alguns minutos, para qualquer lado que olhássemos era apenas um campo de gelo e montanhas ao redor. Com um frio cortante, fechamos o casaco até o pescoço, e colocamos as balaclavas. Sem óculos escuros era impossível enxergar pela claridade absurda do gelo ao redor. Caminhamos cerca de meia hora até a base da montanha, sempre olhando para cima e vendo os argentinos a nossa frente. Não havia uma trilha definida, mas algumas placas de orientação para veículos neste local nos levaram ao local certo, porque aparentemente no verão se pode ir de carro até ali. A partir de um certo ponto, começamos a subida e perdemos a trilha dos argentinos. Não havia mais pegadas nítidas, mas continuamos a subir por uma face menos inclinada.

subindo o Cerro Redentor

Alguns minutos depois, encontramos uma grande linha no gelo, subindo em zigue-zague. Era a trilha dos argentinos subindo com skis e bastões. Como não tínhamos nada disso, fomos subindo pela crista inclinada, fugindo das curvas de nível, e progredimos bem rápido. A sensação era fantástica, estávamos em nossa primeira experiência nos Andes, e ainda em uma escalada invernal. Mesmo que não subíssemos mais já havia valido a pena o esforço. E o que era melhor, não estávamos muito cansados. O que mais foi incomodando era o frio intenso nos pés, pelo gelo que entrava nos sapatos inapropriados. Subindo mais e mais, o cume parecia perto, os argentinos foram ficando também perto. O topo das montanhas ao redor se aproximava e o de algumas já estávamos acima.

ponto mais alto que chegamos na crista inclinada do Cerro Redentor – repare na estrada bem lá abaixo

A paisagem abaixo era incrível, com a estrada cercada por gelo, pequenos caminhões vistos a distância cruzando as montanhas. Parecia que íamos conseguir, e ao passar por uma crista, chegamos a um platô, onde pudemos perceber uma passagem a esquerda muito inclinada e exposta, com pelo menos 60 graus de inclinação. Lentamente fomos caminhando, ganhando pequenos trechos, mas era quase impossível ficar de pé. Não havia no que se apoiar, estávamos sem picaretas ou crampons e se alguém escorregasse seria uma queda meio feia. Alem disso, meus pés estavam congelando. O cume parecia bem perto, mas após avaliarmos nossas condições, decidimos descer.

Estávamos a cerca de 3900 metros de altura e não sentíamos a altitude e nem o esforço da caminhada de quase 1 h e meia. Tiramos algumas fotos e começamos a descer lentamente pela crista. Já era mais de uma da tarde e o sol estava derretendo o gelo, tornando a descida mais difícil, pois algumas vezes enterrávamos até o joelho na neve fofa. Em alguns lugares onde era mais inclinado, fomos escorregando como se fosse um grande tobogã, e ganhamos tempo. Mas perto do final, algumas vezes me enterrei até a cintura no gelo. Saímos pela rodovia, e fomos correndo por cerca de um quilômetro pela estrada até o hotel onde estava o carro. Trocamos meias e sapatos e fomos almoçar num restaurante simpático de beira de estrada, onde conhecemos um lindo gatinho cinza chamado Mich. Voltamos para o carro em direção a Mendoza, não sem antes fazer uma nova parada na Aduana Argentina, mas muito mais rápido do que a chilena na ida. Logo à frente paramos novamente para contemplar o Aconcágua. Ali parado fiquei pensando…Quando vamos voltar?

Puente del Inca

Fizemos uma pequena parada em Puente Del Inca, para vermos as ruínas. Olhamos também um pouquinho do artesanato local, mas o vento forte nos levou de volta ao carro. Descemos as montanhas, em direção ao calor de Mendoza.