Acordei as 5 da manha, com o dia clareando. Nesta época do ano, com o verão se aproximando, as noites vão ficando cada vez mais curtas na região. Sai do quarto e fui olhar um grande mapa que tinha num dos corredores do hotel, de toda a região do parque, especialmente para onde iríamos, o Circuito W, que pretendíamos percorrer em 4 dias. Tinha um mapa pequeno na mão, e fui anotando todos os dados que podia precisar, como distâncias e tempo provável de caminhada em cada trecho, além dos abrigos e refúgios que iríamos encontrar. Estava bastante ansioso e na verdade foi o dia mais tenso de toda a viagem. Preocupava-me o fato do tempo que teríamos para percorrer uma distância tão grande, de 67 quilômetros, com mochilas pesadas nas costas e ainda precisarmos estar de volta para pegar o ônibus em direção a El Calafate, próxima etapa da viagem. Dias de chuva intensa, alguma torção ou ainda a própria dificuldade do caminho, poderiam nos atrasar e fazer com que perdêssemos um dia na viagem. Mas já havia calculado esta possibilidade, e havia a chance de ficarmos apenas um dia em El Calafate. Mas mesmo assim, este era o único trecho que poderia dar algo errado e a ansiedade era evidente, nos passos rápidos pelo piso de madeira do hotel…

Após um rápido café no hotel, o ônibus apareceu as 7:15 de uma manhã meio nublada. Dentro do ônibus, uma babel de pessoas de vários paises, na sua maioria europeus. Inglês, francês, as vezes italiano, espanhol e alguns brasileiros, todos estavam com suas mochilas, prontos para enfrentar as trilhas do parque, reconhecido por muitos trekkers como um dos 2 principais destinos do mundo, perdendo apenas em beleza e interesse para a região do Himalaia. O ônibus foi saindo da cidade em direção ao norte, contornando a baía, e foram surgindo cada vez mais próximas as montanhas nevadas. Cada grupo de montanhas tinha uma rara beleza. No vale, cavalos pastavam. Por vezes, novamente víamos os flamingos pontilhando de rosa as lagoas. Na metade do caminho, fizemos uma pequena parada em uma pequena vila, chamada Cerro Castillo, fronteiriça a Argentina.

Cerca de 80 km nos separavam do parque, e lentamente a última hora foi passando. Ao nos aproximarmos cada vez mais, era difícil perceber os contornos tão já conhecidos por fotos das Torres e dos Cuernos do maciço Paine, pela quantidade de nuvens. Mas após um tempinho, uma parte das montanhas foi aparecendo, lagos cor azul turquesa ou verde esmeralda foram surgindo, flamingos, guanacos correndo pelas montanhas. Chegávamos a região protegida do Parque Nacional. A nossa frente, contornando a Laguna Amarga, o ônibus ia em direção as montanhas. Chegamos ao portão de entrada e guarita dos guardaparques, onde todos desceram para pagar a taxa de acesso.

chegando ao Parque de Torres del Paine

Saltamos do ônibus e pegamos nossas mochilas. Uma pequena van do camping Las Torres aguardava para levar os visitantes até o primeiro trecho do circuito. Andamos cerca de 20 minutos, por uma pequena estrada de terra, atravessando pontes estreitas sobre o rio Paine, contornando uma área atingida por algum recente incêndio florestal. À frente, entre nuvens, por vezes e finalmente, conseguíamos ver por poucos segundos as Torres, um conjunto de torres de granito de cerca de 2800 mts de altura, que pareciam rasgar o céu. Chegamos finalmente ao camping e hospedaria Las Torres, onde iríamos passar o primeiro dia.

Acampamento Las Torres

Montamos acampamento por volta das 10:30 horas da manhã de domingo, esvaziamos a mochila de carga, colocamos um pouco de comida, garrafas de água, roupas e fomos para a primeira perna do circuito W, em direção a base e mirante das Torres Del Paine. Era um caminho difícil, de 18 quilômetros (ida e volta), subindo a montanha, saindo do nível do mar até uma altitude de 1200 metros. Passaríamos pelo camping Chileno, onde também é possível acampar, mas a decisão de acampar em Las Torres, e não levar todo o material até o camping Chileno se mostrou acertada depois, e nos poupou um grande e desnecessário esforço físico.

início da subida as Torres – lago Nordenskjöld ao fundo

Iniciamos a caminhada por volta das 11 horas, e já havia vários grupos na trilha. Pelo nosso mapa tínhamos a informação que o tempo total da caminhada seria de 4:30 horas, até a base das Torres. Este tempo é calculado pelos guarda-parques e usado como referência para hora limite de retorno. Logo no início passamos por uma ponte pênsil que cruzava um rio próximo a hospedaria. Poucos metros a frente, iniciamos a subida, sempre com as montanhas a nossa esquerda, destacando o Cerro Almirante Nieto, com 2640 metros. Subíamos em um ritmo bem forte, e fomos ultrapassando vários grupos de pessoas, na sua maioria europeus. O idioma oficial do parque acabou sendo o inglês, e por vezes um misto de espanhol com inglês. Ultrapassamos todos antes de chegar ao topo da colina que nos deu uma bela visão do parque, e atrás de nós vimos pela primeira vez um braço do lago Nordenskjöld. Estávamos agora no vale do rio Ascensio, a vários metros de altura, e a paisagem era impressionante. Um enorme paredão de rocha a nossa esquerda, a direita uma impressionante altura até o rio abaixo. Um escorregão ali seria bem doloroso. A nossa frente, montanhas com gelo, cada vez mais altas.

Trilha de acesso as Torres antes do Refúgio Chileno

 

Logo à frente, abaixo no vale, surgia o refúgio Chileno. Fomos caminhando com cuidado naquela encosta, nenhuma pessoa nos acompanhava na trilha. Chegamos no refúgio, e para entrar deveríamos cruzar uma ponte pênsil sobre o rio Ascensio.

Refúgio Chileno

Deixamos para conhecer o abrigo na volta, e continuamos forte em direção as montanhas. Estávamos indo bem, e havíamos chegado ali em pouco mais de uma hora e 20 minutos, bem abaixo das duas horas marcadas no mapa. Continuamos pelo lado esquerdo do rio, passando entre bosques, subindo e descendo pequenas colinas. As montanhas algumas vezes ficavam cobertas por nuvens. E enquanto estávamos passando entre as árvores, em uma clareira, pequenos flocos de neve começaram a cair.

Durante os próximos minutos, nevou fino algumas vezes. A paisagem era tão fantástica, mas nosso cansaço já ia se acumulando. Pouco depois surgiu a nossa frente uma placa dividindo o caminho: a direita seguia para a guarderia avanzada dos guardas, e a frente continuava o caminho para a base das Torres. Ali, tão próximos, ainda não conseguíamos vê-las, encobertas pelas nuvens. Mas ainda estávamos baixo, pensei, e deveria haver uma forte subida a frente. Logo ela surgiu, entre enormes blocos de pedras.

Subida final as Torres

Fomos ganhando altitude rapidamente e a subida parecia bastante com a parte mais alta da escalada em Agulhas Negras. Sempre íamos pisando em enormes pedras, e isso tornava ainda mais cansativo a cada minuto. Algumas pessoas também estavam na trilha, fomos ultrapassando alguns grupos, o que nos motivava, e mostrava como estávamos bem preparados fisicamente para os próximos dias. Logo estávamos bem alto, e o vale ia ficando cada vez mais abaixo. A nossa frente, surgiu uma área com bastante neve no chão, e um enorme bloco de pedra, onde algumas pessoas estavam paradas contemplando, outras pulavam de alegria. Estávamos chegando, e nossas passadas ficaram ainda mais rápidas.

As Torres de granito foram surgindo, e mesmo entre densas nuvens, ocasionalmente podíamos ver um pedaço delas. Era uma paisagem que se mostrava impressionante, mas quando passamos pelo enorme bloco de pedra, quase caímos para trás. Difícil descrever a paisagem, e qualquer tentativa certamente será longe do que realmente foi estar ali. Dentro de um enorme circo de rocha, montanhas e gelo, uma pequena lagoa esverdeada, com alguns blocos de gelo boiando, deixava a paisagem digna de um belo quadro. Era difícil acreditar que podia existir um lugar tão bonito.

Laguna e as Torres

Pequenos flocos de neve iam caindo, um vento frio nos fustigava, e tivemos que colocar mais roupas, luvas e balaclavas. Descemos em direção a lagoa, em uma área repleta de neve e nos protegemos atrás de um bloco de pedra, onde iríamos fazer um lanche. Ali, saboreamos um bom vinho, comemos pão e desfrutamos alguns minutos de fascinação diante da natureza.

Após cerca de 1 hora, muitas fotos depois, pensamos em começar a descida. Levamos um pouco menos de 3 horas para chegar, e calculava em pelo menos 2 horas a volta. Mas ao nos afastarmos apenas um pouquinho da lagoa, o tempo começou a mudar. Raios de sol foram aparecendo entre as nuvens, os blocos de granito das Torres foram ficando cada vez mais nítidos e impressionantes. O vento que vinha do sul ia limpando a região e parecia que ia melhorar cada vez mais. Era 3:30 da tarde e podíamos esperar mais um pouco. As nuvens foram se dissipando com o vento e alguns minutos depois apareceram todas as três torres: a norte, com 2600 mts, a central com 2800 mts e a sul com 2850 mts.

Torres de granito

A luz do sol entrava naquele circo de montanhas e as cores foram ficando mais nítidas. A lagoa ficou verde esmeralda, clarinha, formada pelo degelo. Ficamos ainda alguns minutos contemplando a paisagem e iniciamos a descida, depois das 4 da tarde.

Chegamos ao acampamento chileno um pouco mais de uma hora depois e paramos alguns minutos para conhecê-lo. É um pequeno albergue e uma área de camping, onde se pode pernoitar. Sem demorar muito, passamos novamente pela ponte pênsil e atravessamos novamente a trilha exposta, com varias pedras pequenas que por vezes caiam lá embaixo. Depois de 2 horas e meia da saída da base das Torres, chegamos ao acampamento.

jantar no acampamento

Exaustos e felizes, fomos tomar um banho rápido, antes que esfriasse ainda mais, já que o sol ia se pondo. Após o banho, fomos fazer nosso jantar dentro da barraca, regado a um bom vinho. A noite foi bem fria, talvez a mais fria que tivemos na viagem.