* Henrique IV – Shakespeare

Ir à África sempre foi um sonho antigo, e quando criança me parecia um lugar mágico, cheio de animais ferozes em uma terra distante. Além do meu fascínio e paixão por animais, na juventude, passei adotar o continente africano quase como um segundo lar, terra de todos os ancentrais do homem moderno. Foi de lá que viemos, e para lá um dia eu iria, pensava.

Decidi ir à África quase em uma catarse de emoções, logo após a perda de meu adorado e amigo incondicional, que havia vivido comigo por uma década, e que comigo havia passado por todo o início da minha vida fora do Rio de Janeiro. Comigo meu cão viveu as minhas transformações pessoais, a troca de empregos, as mudanças entre Paraná, Rio Grande do Sul e finalmente Santa Catarina, na caçamba do carro. Meu “filhote” amado me deixou, rapidamente e dolorosamente. Minha única alternativa era ir para um lugar onde houvesse vida em profusão, vida em seu estado mais bruto e selvagem. Era o momento de ir à África.

Depois de poucas horas de sono, e de um vôo tranqüilo de pouco mais de 5 horas sobre o oceano atlântico, olhei pela janela do avião da South African e vi meu primeiro nascer do sol sobre o continente africano. Foi um momento especial, passando sobre a porção sul da Namíbia em direção a Johanesburgo. Imaginei o deserto abaixo, coberto de dunas, enquanto as luzes avermelhadas do sol preenchiam o escuro da noite.

A chegada a Johanesburgo foi tranqüila, em um grande e belo aeroporto. Pouco tempo depois seguia novamente em um ônibus até a pista do aeroporto, onde um pequeno bimotor nos aguardava.

A viagem até o aeroporto de Hoedspruit, na entrada do Parque Nacional Kruger, foi tranqüila. O Kruger Park é uma das muitas áreas de preservação permanente da África do Sul e se localiza próximo a fronteira com Moçambique. Foi criado em 1898 e é um dos mais conhecidos do mundo. Logo na pista de pouso, famílias de javalis fugiam do avião que tocava a pista e nos convidavam para uma aventura que seria fascinante.

Diversos animais vivem na extensa e protegida área do parque, como leões, rinocerontes, búfalos, elefantes e leopardos, além de zebras, girafas, gnus, impalas, cães selvagens, hienas, macacos e hipopótamos. Centenas de espécies de pássaros e plantas conferem um cenário ainda mais belo na savana.

Logo ao sair do pequeno aeroporto, em direção ao hotel, surgiram duas girafas em frente ao jipe de transporte. Não conseguia esconder a admiração de ver pela primeira vez animais daquele tamanho livres, caminhando pela estrada sem preocupação. Os contatos com os animais seriam freqüentes nos próximos dias. A cada safári, ou game drive como é chamado por lá, vinha junto a emoção da busca, do seguir as trilhas, de ver animais livres. A natureza no seu estado puro.

Já no primeiro safári, encontrei zebras, girafas, hipopótamos, impalas, babuínos…mas nada de felinos. Buscávamos uma trilha de leões da noite anterior, mas parecia que eles teimavam em se esconder. Fazia muito frio no início da manhã, menos de 10 graus, e íamos todos no jipe enorme, cerca de 8 pessoas, e aberto, aquecidos apenas com cobertores sobre a roupa.

Uma manada de búfalos surgiu, e ficamos bem próximos deles. Logo depois, encontramos outra trilha, e abaixo de uma sombra, uma leoa descansando. Linda, parecia um enorme gato descansando após o almoço. Encontramos depois um casal, um leão e uma leoa deitados e repousando.

Ao voltar para o hotel, fomos brindados com um grupo de cerca de 15 elefantes, incluindo filhotes, passando pela estrada. Nada mal para o primeiro dia.

No safári noturno fazia ainda mais frio, mas agora a busca seria por mais felinos, e de outros animais que tem hábitos noturnos. Encontramos hienas, um tipo de gato selvagem, e depois de quase meia hora no escuro, nosso prêmio. Uma leoa e três filhotes se alimentando de uma caça recente. Ficamos ali admirando aquela cena, em uma noite estrelada. Não poderia ter sido melhor o 1º dia na África.

No segundo dia, em ambos as saídas encontramos leões, e desta vez foram vários adultos e jovens. Todos deitados, descansando a sombra de árvores. Girafas, zebras, búfalos, javalis, novos encontros a cada minuto das trilhas.

Até que encontramos dois rinocerontes, animais bem difíceis de serem rastreados, e bastante perigosos. Um adulto e um filhote passaram calmamente a nossa frente, como se ali não estivéssemos.

Os poucos dias foram intensos, e a vontade era a de nunca ir. Sai do Kruger ainda com mais vontade de conhecer outros parques africanos, onde a vida selvagem ainda permanece com pouco ou quase nenhum contato com o homem. Um novo vôo me levava a Cidade do Cabo, mas meu coração havia ficado naquele lugar.