Voamos por cerca de 40 min acima daquele piso branco, com alguma turbulência, por vezes mais forte e logo começamos a descer. Parecia irreal: o piloto nos informava que estávamos em procedimento de pouso em Ushuaia!!!! O avião começou a descer, mas as nuvens densas impediam qualquer visão. Mais turbulência. De repente, entre as nuvens, picos nevados começaram a aparecer. Estávamos sobrevoando os Andes, e descíamos lentamente. A nossa esquerda surgiu a cidade, linda, espremida entre as montanhas nevadas. Estávamos agora sobrevoando o canal Beagle, e quase não podia acreditar. Tudo o que havia visto em livros, tudo, estava lá. O avião seguiu mais à frente, e fez uma brusca guinada para a esquerda, para voltar em direção a cidade. Enquanto fazia a curva, vi ao longe a pista de pouso do aeroporto. Começamos a descer mais rápido, e logo mais turbulência. Abaixo, no canal, pude perceber o farol do fim do mundo, como é chamado na região, e pequenas ilhas. Avistei terra e finalmente pousamos na Terra do Fogo.

Logo saímos do avião e estávamos no saguão do aeroporto, procurando informações de hotéis. Um taxista simpático nos levou a cidade, e foi nos mostrando alguns pontos turísticos. No primeiro hotel não conseguimos vaga, mas encontramos um simpático hostel, a 2 quadras da avenida San Martin. Guardamos as pesadas mochilas e já estávamos descendo em direção a avenida Maipu, que beirava o canal.

Ushuaia - canal Beagle

O segundo dia era um dia perfeito, sol e algumas nuvens, mas muito melhor do que na véspera. Saímos de barco pela baía e à medida que nos afastávamos, olhei para trás e a cidade parecia ainda mais bonita, encravada nas montanhas, e as margens do canal. Um lugar para se viver…

A nossa frente, a ilha de Navarino, já em terras chilenas. Se pudéssemos ver sobre ela, veríamos o Cabo Horn, união entre os oceanos Atlântico e Pacifico. Na verdade o canal Beagle unia também estes 2 oceanos. A nossa direita, a Cordilheira Darwin, no Chile. Atrás e a nossa esquerda, as montanhas dos Andes argentinos. Nessa região é o único lugar onde a cordilheira dos Andes corre no sentido oeste-leste e não no norte-sul.

Navegando pelo Canal Beagle

Navegando no canal Beagle, em direção a saída do Atlântico, fiquei na proa do barco, sozinho, com um vento gelado cortando meu rosto, pensando na viagem de Darwin. Impossível não imaginar a coragem daqueles homens, há quase 200 anos, navegando em terras tão distantes de sua casa, tão inóspitas e selvagens. Impossível não imaginar todas as conseqüências que aquela viagem trouxe para o conhecimento humano. Na sua visita a Patagônia, Darwin encontrou estratos geológicos antigos, fosseis marinhos em locais distantes da costa, fosseis de animais gigantes extintos. Pequenas pistas, que foram somadas aos estudos geológicos de Lyel e sua posterior visita as ilhas Galápagos, contribuíram para o desenvolvimento de sua tão elegante, simples e brilhante teoria. Pensando em tudo isso, ia viajando no Beagle e dentro de mim. Ia viajando no espaço e no tempo.

Farol do Fim do Mundo

Fomos nos aproximando do Farol Les Eclaireurs, conhecido na região como o Farol do Fim do Mundo. Na verdade, o Farol do fim do mundo, imortalizado por Julio Verne, fica na Ilha dos Estados, no cabo Horn, mas turisticamente este levava este nome. O farol é lindo, fica em uma pequena ilhota. Ao lado, outra ilha com enormes leões marinhos de um pêlo, brincando e emitindo sonoros ruídos, tomando sol. Lá atrás as montanhas geladas.

Leões Marinhos

No terceiro dia iniciamos o passeio em direção à estância Haberton, a primeira fazenda da região. Pelo caminho, na ruta 3, passamos entre picos nevados, vales e rios, no interior da Terra do Fogo. Passamos pelo centro de Ski do Cerro Castor. Saímos da rodovia principal, por uma pequena estrada de terra à direita e passamos por bosques e rios, uma paisagem típica da região. De vez em quando avistamos algumas castoreiras, barragens feitas pelos castores. Após mais alguns quilômetros, chegamos à Bahia Blanca, onde paramos por alguns minutos. À nossa frente avistamos do outro lado do Beagle, a cidade de Puerto Williams no Chile. Voltamos a fazer uma nova parada, dessa vez para ver a arvore símbolo da região, chamada de árvore bandeira, porque fica totalmente curvada pelos fortes ventos patagônicos.

àrvore bandeira - força do vento sul

Chegamos à e logo estávamos dentro de um pequeno bote inflável em direção a ilha dos pingüins. Navegando novamente pelo Beagle, vento e água fria batendo no rosto. Após alguns minutos nos aproximamos da pinguineira. Antes de descer, pequenos lembretes do guia nos informaram que deveríamos andar devagar e sem fazer barulho, alem de respeitar as trilhas da ilha. Ao descer, já avistamos um pequeno ninho com pingüins de duas espécies, mas a grande maioria era o de Magallanes, menor e todo preto. Caminhamos pelas trilhas da ilha e fomos vendo vários pingüins em diferentes situações: alguns em ninhos, outros mergulhando nas ondas. Alguns caminhando despreocupadamente nas trilhas.

pinguineira

Entramos no bote e bem devagar, fomos nos aproximando de um grupo que estava na praia, tomando banho. Chegamos bem perto e ficamos contemplando as suas brincadeiras. Voltamos em direção a Estância e de volta a cidade.

O dia amanheceu parcialmente nublado, mas um tímido sol nos animou a ir ao passeio da manhã, o Cerro Martial. A apenas 7 km, de lá teríamos uma visão de toda a cidade e do canal Beagle. Pegamos um táxi em frente ao hotel e logo estávamos subindo uma pequena elevação em direção a aerosilla. Chegamos à entrada do teleférico, compramos os passes e subimos na cadeirinha. À medida que subíamos, as montanhas ficavam mais próximas, e atrás de nós íamos vendo a cidade e o porto. Foram surgindo pequenos montes de gelo no chão, e logo depois havia por toda a parte. À esquerda da subida, aparecia a pista de ski, completamente sem neve.

Após alguns poucos minutos, desembarcamos na plataforma superior. Passamos ao lado de um pequeno refúgio e local de aluguel de equipamentos de neve. Estávamos agora a cerca de 300 metros de altura e começamos a seguir a trilha que nos levaria ao glacial. Cruzamos um pequeno rio formado pelo degelo nas montanhas e fomos em direção norte. A trilha que no começo era bem fácil começou a ficar bastante íngreme, e algumas vezes, caminhamos sobre grandes extensões de gelo. No final, uma ladeira enorme nos custou um esforço maior, mas a visão que aparecia, toda a cidade, os navios no porto, o canal e as montanhas, valia qualquer sacrifício. Chegamos bem próximos a parede do glaciar Martial e ficamos sentados admirando a paisagem. Depois de algumas fotos, descemos e seguimos outra trilha, em direção ao Cerro Godoy, onde teríamos outra visão da região. Pedras que se soltavam, gelo e abismos, mas nada que fosse impossível e logo estávamos em uma base com uma grande vista.

Cerro Martial

Descemos por uma grande área com gelo, e logo estávamos encharcados, por que o gelo estava sobre um pequeno rio. Chegamos correndo ao refúgio, tiramos os sapatos e meias e ficamos nos esquentando em frente à lareira. Quase uma hora depois, estávamos descendo de teleférico em direção a cidade.

Dicas

mapa terra do fogo

Ushuaia é a capital da Província da Terra do Fogo. É conhecida como a cidade mais austral do mundo ou a cidade do Fim do Mundo. O aeroporto da cidade a conecta a Buenos Aires , El Calafate e Rio Gallegos (na argentina) e Punta Arenas (Chile). Tanto a Aerolineas Argentinas quanto a Lan Chile tem vários vôos diários para a cidade.

O clima de Ushuaia é frio temperado pelo mar, a vegetação da região é o bosque subantartico, com uma temperatura média anual de 4,7 º graus e uma pequena oscilação anual que vai de 0,5 °C em julho a 10  °C em janeiro.

A melhor época do ano é a primavera ou outono, quando há menors turistas e a cidade não fica tão cheia. Se quiser esquiar, prefira ir nos meses de agosto ou setembro, pois as estações de sky permanecem abertas até esta época e ficam menos tumultuadas.