O que nos identifica como humanos? O que nos torna uma espécie ímpar, única que desenvolveu a incrível capacidade de ter células cerebrais em tal complexidade e número que permite ter sua autoconsciência, e questionar inclusive seu papel, e o motivo da vida?

Foi através da astronomia, que iniciei o entendimento da ciência, e através dela o hábito de questionar. A manter acesa a idéia de sempre questionar a verdade, e até mesmo, a verdade como sendo uma razão absoluta, pois claramente depende do íntimo de seu observador.Você pode estar neste exato momento se perguntando: o que existe de conexão entre o questionamento e a inquietação com o fato de nos identificar como humanos? Porque com isso nos tornamos únicos, e nos diferenciamos às demais espécies que partilham este planeta?

A resposta está na palavra solidão. Sim, a sensação de solidão, e a compreensão dela nos fazem ser humanos.A primeira vista isto pode parecer inexato. Várias outras peculiaridades nos fazem diferentes, e talvez únicos, pelo menos nesta pequena porção do Cosmos, entre bilhões de estrelas e galáxias. Claro, outras razões podem ser apontadas – o andar ereto, a capacidade da linguagem, a cultura, o desenvolvimento da história, a agricultura, a ciência, e nossa capacidade cerebral. Mas… olhe bem de perto. Afora as transformações físicas que sofremos após descermos das árvores nas savanas africanas, e gradativamente nos tornarmos diferentes dos outros primatas, foi o sentimento de vazio, de compreensão mesmo que ainda incipiente de pequenez, que nos causou a maior transformação.

No início da história humana, éramos caçadores-coletores, e andarilhos. Vivíamos em uma pequena área e em pequenos grupos, como nossos parentes mais próximos. Com o passar do tempo, iniciamos uma série de viagens, que nos levou a expandir nossa presença em praticamente todo o canto do planeta. Foram as diversas diásporas humanas. Saímos do berço da África em direção a Ásia, depois Europa e Américas. Ainda não tínhamos capacidade cerebral suficiente para nos diferenciar. Mas, foi a primeira vez que saímos de casa. Em algum momento de nossa história, entre as diversas espécies de humanos que provavelmente co-existiram, uma se sobressaiu, e começou a desenvolver um tipo primitivo de cultura. Além de viver em famílias, passamos a realizar um ritual de enterrar nossos mortos. Pode parecer pouco, mas pense no significado. Pela primeira vez, nos diferenciávamos dos outros animais, e iniciávamos a cultura humana. Em algum momento depois, surgiram as primeiras pinturas em cavernas na Europa, com expressões e figuras do cotidiano, o início da linguagem. O próximo grande momento de transição da historia humana, foi o desenvolvimento da agricultura. Foi o que nos permitiu fixar em um local. Pela primeira vez, podíamos manter um grande número de pessoas, sem o risco de falta de alimentos ou a necessidade de constantes deslocamentos.

Crescemos em número, e com a revolução industrial, o desenvolvimento da medicina, canalização de água e esgotos, além das revoluções sócio-culturais e tecnológicas, modificamos e transformamos nosso planeta. A cultura humana, ou a arte humana, é algo complexo e multiforme. As diversas formas de manifestação – pintura, poesia, artesanato, escrita, rituais, religião, música, cinema e mesmo a ciência – são expressões particulares, em composição para a formação de um todo que é o ser humano. Mas todas as formas de cultura, sem exceção, são uma forma de nos sentirmos menos sozinhos. No fundo, apenas isso. A compreensão de finitude e de morte, sempre nos causou um profundo sentimento de inquietação e de necessidade de preenchimento com algo maior do que a experiência de apenas viver o cotidiano.

O que é um artista, um pintor por exemplo, do que um indivíduo que através da pintura, expressa seus sentimentos, anseios, dúvidas, amor e ódio. E seu quadro, uma representação de sua compreensão do seu universo, interior e exterior. E o ato de pintar, o de se expressar. Uma tentativa de se comunicar com o outro, e de se sentir menos sozinho.

As diversas representações de religiosidade também podem ser interpretadas como uma tentativa humana de entender a si mesmo, e de ter respostas a algo que não se compreende. O sentimento de tempo, a compreensão do envelhecer, a certeza da morte e o medo do desconhecido criaram a necessidade no ser humano de imaginar algo maior do que suas próprias capacidades e compreensões. Acreditar em vários Deuses ou em um único Deus e o surgimento das diversas religiões foram formas, ou rituais humanos, de expressar este sentimento. No início o medo do desconhecido, do mágico e posteriormente, a necessidade de não estarmos sozinhos. As Pirâmides, os Templos, as Mesquitas e as Igrejas são a mesma parte da representação humana de se atingir o céu, de ser maior do que si mesmo, e de tolerar o sentimento de vazio.

De mesma forma, mas com uma lógica diferente, a ciência. Questionar a verdade é a palavra chave do método científico, profundamente diferente e por isso conflituosa com a fé religiosa. A religião nos diz para crer sem questionar. A ciência nos diz para questionar para crer, e depois questionar novamente. Não sem antes replicar o teste. Entretanto, também a ciência é uma forma de arte, e de busca de respostas. Também é uma forma de compreensão de algo maior, de preencher os espaços vazios. O aumento do conhecimento nos causa uma sensação de tranqüilidade, e de conforto, por vezes semelhante ao experimentado pela religiosidade. No fundo, não há muita diferença. Ambas são formas de expressão humana e, salvaguardando o método, e o extremismo de um lado ou de outro, são ferramentas de compreensão de nós mesmos, da busca interminável por respostas, e uma tentativa de nos sentirmos menos sozinhos.
A intolerância religiosa ou científica é um beco sem saída. A Historia humana está repleta de exemplos de extremismos, religiosos ou de pensamento, que causaram perda, retrocesso e em nenhum caso foi bem sucedido, ao menos por um longo tempo.

Olhamos para o céu pela mesma razão. Se rezamos para Javé ou Alá, se apenas admiramos as estrelas, ou se lançamos naves espaciais com mensagens para prováveis mundos distantes, estamos apenas tentando responder o questionamento inerente do que nos torna humanos – o de quem somos e o de se estamos ou não sozinhos.

Nossa vida pode ser poeticamente colocada como um feixe de luz dentro da história do universo, para nos colocar na dimensão correta. Dentro de uma linha de cerca de 14 bilhões de anos, imagine um feixe de luz de 70 anos.  Dentro da história do tempo, a maior probabilidade é de não estarmos vivos em qualquer época, ou de nem termos sequer existido, pela diversidade de recombinações possíveis do código genético.

Calendário Cósmico - repare o que representa a história humana

A luz passa, mas por sorte antes de passar, ela nos dá tempo para compreender um pouco este lugar em que efemeramente nos encontramos e a razão, ou a falta dela, de aqui estarmos. Somos os únicos dentre os animais a prever o nosso fim. E somos também os únicos a poder antes de morrer sentir que valeu a pena viver.