Imagine entrar por um portão, seguir por uma viela e voltar ao passado. Assim é entrar na Medina de Fez, a cidade antiga datada de 970 D.C. Esqueça computadores, smartphones, ou outras tecnologias modernas. Não que eles não funcionem por lá, mas porque simplesmente não fazem sentido dentro daquele contexto.

muro da Medina

Caminhar pelas ruas estreitas, por vezes escuras, sujas e barulhentas exige alguma dose de coragem. Sem um guia local me atrevo a dizer que seria quase como entrar em um filme de Indiana Jones.

detalhes da arquitetura árabe

Cheguei a Fez a noite, em um avião bimotor ATR-72 da Royal Maroc, vindo de Casablanca. A viagem foi curta, de menos de uma hora, depois de uma longa conexão no aeroporto antigo de Casablanca, onde os tipos mais exóticos se espremiam no saguão.

chegando a Fez de bimotor a noite pela Royal Maroc

Chegamos por volta de 11 h da noite, e após os trâmites de imigração, seguimos com nosso guia de carro até uma das várias entradas da velha cidade. Entramos na Medina quase meia noite, e parecia um cenário de filme de Hollywood antigo. O carregador do hotel seguia a nossa frente com a mala na cabeça, por passagens estreitas e escuras, com menos de metro e meio de largura. Algumas poucas pessoas surgiam vez ou outra em algumas passagens, cruzando conosco entre sacos de lixo e gatos fuçando em busca de comida. Chegamos então a uma pequena e antiga porta e entramos em um corredor, que nos levou a um elevador. No segundo andar, fomos até a entrada do apartamento e surgiu uma bela visão da arquitetura árabe, e a organização do “Dar”, um tipo de casa marroquina onde um grande pátio central no térreo interliga os cômodos. O quarto era grande, saído de um conto de mil e uma noites.

Dar em Fez

No segundo dia fomos visitar a cidade. Fez é uma das principais cidades do Marrocos, a segunda em população, e uma das cidades imperiais que já foi sede da Capital. Hoje, são duas cidades em uma só: a antiga, construída entre os séculos X e XIV onde fica a Medina, e a nova em plena expansão, com avenidas largas, fontes, hotéis e spas cinco estrelas e hipermercados.

um dos antigos portões de entrada na Medina em Fez

Visitamos a Medina, e em seu interior comerciantes de frutas, grãos, carnes, ferrarias, couros e produtos árabes. Incontáveis gatos tentando pegar um pouco da comida que caía das bancadas dos açougues e peixarias. Aviários onde se escolhia a galinha para ser morta na hora, várias pessoas falando ao mesmo tempo, e o cheiro de especiarias no ar.

Por dentro da Medina

Tudo isso misturado, em um grande mercado público interligado por vielas estreitas, animais e lixo, sem nenhum sinal de vigilância sanitária. Quando achei que já tinha visto de tudo, passei ao lado de um açougue com duas cabeças enormes de dromedários penduradas, várias patas e dois pescoços, e várias pessoas escolhendo.

carnes expostas em uma das lojas da Medina – fonte zoenomundo.blogspot.com

Enquanto minha fome ia embora, nosso guia falou que a carne é apreciada entre os antigos, porque segundo eles reduz o colesterol. Resolvi não arriscar…

vista do curtume

Conheci fábricas de artesanato, cerâmica, tapeçarias e um grande curtume a céu aberto, com um cheiro fétido terrível, amenizado apenas por folhas de hortelã que nos colocaram no nariz. O simpático vendedor nos disse que se acostumava com o cheiro, e que naquele período do ano estava “leve”, pois no verão ficava muito mais forte.

cerâmicas marroquinas

Criei coragem, e almoçamos no terraço de um pequeno restaurante local, com vista para a movimentação na Medina abaixo. Algumas entradas árabes, kebabs com pão (que o dono me garantiu que não era de camelo) e uma aula de islã entre a alegre conversa com o guia. Muitas coisas aprendi com ele sobre a simplicidade e a idéia de paz contida no Islã, tirando um pouco da idéia que chega até nós ocidentais pelos meios de comunicação, de países extremistas como o Afeganistão, Síria e o Irã. Nosso guia tinha tido a oportunidade de estudarem uma Universidadena Inglaterra e já ter feito palestras nos EUA, e com isso ter uma visão de mundo muito abrangente e fascinante.

mais da arquitetura árabe em Fez

Ao fim da tarde, fomos a um platô no alto de uma colina, com uma bela visão de toda a Medina, a maior do mundo em área. Lá embaixo, um filme ia passando, à medida que as pessoas iam em sua vida diária, em um local perdido no tempo. Era apenas o 1º dia no Marrocos.

vista de toda a área da Medina em Fez

Enquanto escrevo agora, saímos de Fez na manhã do segundo dia, e estamos iniciando a subida que nos levará ao alto da passagem pela Cordilheira do Atlas, a maior cadeia de montanhas do país. Do lado oeste, as cidades de Casablanca, Fez, Rabat, Marrakesh e Meknés, o vale verde e o Oceano Atlântico. São comuns as árvores frutíferas e oliveiras, cabras e ovelhas. O dia está lindo, com sol, poucas nuvens e 15º C. No alto do Atlas já vejo a neve branca cobrindo grandes extensões. Do outro lado encontraremos a aridez, pouca vegetação e o deserto do Saara.