No terceiro dia de viagem ao Marrocos, saímos no meio da tarde com nosso motorista e guia Berber em direção as dunas de Merzouga, entrada do deserto do Saara. Era uma viagem de pouco mais de 40 km, mas que duraria cerca de duas horas, por conta das paradas pelo caminho para apreciar a paisagem do deserto. Nosso destino seria um pequeno alojamento encravado nas dunas, bem próximo a fronteira com a Argélia, para apreciar o pôr do sol, e uma noite estrelada no deserto.

Nosso guia Berber em uma das paradas do caminho

Assim que saímos da cidade, a estrada terminou e entramos em um caminho de terra e areia, com pouca ou quase nenhuma vegetação. Várias placas de museus de fósseis, ou venda de fósseis apareciam por todo lado. Por incrível que pareça, a região é riquíssima em fósseis marinhos, pois em eras antigas esteve toda abaixo do mar.

região de Merzouga – as montanhas avermelhadas ao fundo já são a Argélia

Nosso guia berber ia nos dando algumas informações sobre a região e sobre a cultura do povo Berber. Os bérberes ou Amazighen (cujo significado é “homens livres”) são um conjunto de povos que vivem no norte da África (principalmente no Marrocos e Argélia), que falam a língua berber, da família de línguas afro-asiáticas. Hoje fazem parte ainda de povos nômades, que vivem espalhados pelo deserto em sua maioria, ou cujos descendentes nas cidades ainda falam a língua nativa juntamente com o árabe, e trazem consigo as raízes e orgulho da tradição antiga. São descendentes originais dos povos antigos que vivem na região do Magreb africano, anteriormente a invasão e aculturação arábica.

Bandeira Amazigh – Berber

Após algumas paradas para fotos e apreciar a paisagem, passamos por um grupo de dromedários, que passeavam livremente pelo deserto.

chegando ao Saara

A medida que as dunas ficavam mais próximas e mais altas, com seus tons avermelhados e terracota, fizemos uma breve parada em uma casa berber, onde uma criança e sua mãe estavam nos seus afazeres diários, enquanto seu pai pastoreava cabras em algum lugar por perto.

o pequeno Hassan vindo em nossa direção

O menino, de cerca de 2 ou 3 anos veio correndo em nossa direção, de pés descalços. Seu nome era Hassan, e sua pele e cabelos eram da cor do deserto, impregnados pela areia. A moradia era muito rústica, com apenas uma cobertura e pedras para segurar do vento e das intempéries. Sua mãe simpaticamente nos ofereceu um delicioso chá de menta. Enquanto isso Hassan tentava se comunicar conosco, e ríamos todos da alegria do menino. Deixamos para a família alguns alimentos que trazíamos conosco, e ficamos com uma foto de recordação de um momento especial.

delicioso chá de menta sendo servido pela mãe do Hassam

Mais cerca de meia hora de viagem, o carro parou e nos deixou em frente a um rapaz com dois dromedários que nos esperava. Nosso passeio agora continuaria até o alto de uma duna, para vermos o pôr do sol em cima dos animais, e depois até a cabana onde passaríamos a noite.

fim de tarde no deserto, indo para o alto de uma duna para ver o por do sol

A beleza e a mudança de cores sobre as dunas e acima das montanhas que fazem fronteira com a Argélia somavam-se ao sol se pondo, e o frio da noite aumentando.

sol se pondo no Saara

Chegamos ao acampamento, e quatro músicos nos receberam com cantigas africanas. Após um banho quente, ficamos deitados nos tapetes da entrada do acampamento, enquanto o céu se tornava mais escuro e apenas a lua cheia e a fogueira iluminavam o deserto. Escutávamos algumas histórias do povo Berber, de Marrocos, ao mesmo tempo que admirava as estrelas, com Júpiter e Marte altos no céu. Fiquei imaginando os povos antigos, e provavelmente até mesmo hoje com os nômades, que utilizavam as estrelas e planetas como guias ao longo do deserto, ou ainda para saber as estações do ano. A estrela polar imóvel no céu do norte nos fitava ao longe, quando o jantar foi servido. Uma iguaria marroquina. Ao final, os geradores foram desligados e apenas o silêncio e o frio do deserto nos acompanhou.

acampamento pela manhã

Pela manhã, bem cedo por volta das 5 horas, fomos acordados com um copo de café para vermos o nascer do sol. Fazia cerca de 5 graus, e subimos uma duna próxima do acampamento, aguardando o sol nascer por trás das montanhas na Argélia.

e o sol nasce sobre a África

Voltamos ao acampamento e encontramos um saboroso café da manhã, antes de voltarmos ao carro. Fizemos uma breve parada no oásis de Merzouga, uma grande área verde, com árvores, flores e plantações.

oásis de Merzouga

Encontramos nosso motorista e guia que vinha conosco desde Fez em Erfoud e fomos em direção a Ouarzazate, nosso próximo destino.