Deixamos Ouarzazate no quinto dia de viagem, em direção a Marrakesh. Cruzaríamos ao longo do dia novamente a cordilheira do Atlas, e sairíamos da aridez de sua porção oriental, para a verdejante planície onde vivem a maior parte da população marroquina.

Saindo de Ouarzazate em direção a Marrakesh

Antes de cruzarmos as montanhas teríamos uma parada em um dos mais belos monumentos da humanidade, tombado pelo UNESCO em 1987 : o kasbah Ait Benhaddou, um complexo de argila e pedra cercada por muros com portões monumentais, localizado no caminho das antigas rotas de caravanas entre o Saara e Marrakesh. Localizado a beira do rio Ounila, contém centenas de palácios e pequenas moradas em seu interior, algumas sendo restauradas hoje por pequenas famílias. Cerca de 10 ainda residem dentro de seus portões, mas a maioria mora ao largo da estrutura, e vive da agricultura e pastoreio, além do turismo com o sítio famoso. Aqui também inúmeros filmes utilizaram a beleza do imenso kasbah para locação, incluindo famosos como Jóia do Nilo e os mais recentes Gladiador, Cruzada, a Múmia e Príncipe da Pérsia.

Ait Benhaddou

Dentro de sua murada é possível apreciar a visão do vale do rio Ounila, bem como artesanatos, pinturas e tapeçarias locais. Um sinuoso caminho leva até o topo, onde a deslumbrante visão de todo o complexo e do Atlas se descortina.

Visão por dentro das muradas – detalhes nas paredes de argila e o leito do rio Ounila seco ao fundo a direita

Saímos de Ait Benhaddou e seguimos os 190 km que nos distanciávamos até Marrakesh. Cruzamos o Atlas em mais um belo dia de sol, e fomos já vendo pequenos vilarejos com plantações de olivas, cabras pastando, e muitas lojas onde se vende a febre cosmética do óleo de argan. Considerado hoje como o ouro líquido do Marrocos, a árvore de Argan Spinosa, cresce apenas no sudoeste de Marrocos, e é por sua natureza, uma árvore única no mundo. O óleo extraído de suas amêndoas é rico em vitamina E e ácidos graxos essenciais, sendo utilizado tanto na cosmética quanto na culinária.

Argânia, natural do sudoeste do Marrocos

amêndoa da árvore de argan

Chegávamos no fim da tarde a região metropolitana de Marrakesh. Nosso destino final seria o interior de sua Medina, onde ficaríamos hospedados em um Riad, uma bela e característica hospedagem marroquina, semelhante ao Dar que ficamos em Fez, mas com a diferença de possuir uma piscina em seu saguão central. Nosso guia nos deixou na entrada da Medina, onde encontramos uma simpática gerente do nosso Riad. Por entre as vielas da Medina, entramos por uma antiga porta, e novamente estávamos em um universo de mil e uma noites, com toda a beleza da arquitetura árabe.

Riad em Marrakesh

Cansados, mas bastante curiosos, fomos caminhar para além da Medina em direção ao ponto turístico mais famoso da cidade, indicado para visitas a qualquer hora do dia ou da noite: a praça Jemaa el-Fna. A cada momento do dia ou da noite ela se transfigura, entre cores, cheiros, sabores e os mais exóticos cenários. Marcada pela presença imponente da torre da Mesquita Kutubia em um dos seus cantos, é uma enorme área ao ar livre, onde os marroquinos e turistas de todos os cantos do mundo se encontram.

Praça Jemaa El Fna ao anoitecer – fonte insidearab.com

Nas dezenas de barracas em um dos pontos da praça, é possível se deliciar (???) com os mais exóticos tipos da culinária marroquina, incluindo a famosa  sopa de caracóis (vi alguns turistas comendo nas barraquinhas…fiquei muito curioso para saber sobre o dia seguinte…), ou frutas e grãos secos, mais confiáveis.

barraquinhas de petiscos na Jemaa El Fna – fonte dinomada.blogspot.com

Em outro canto da praça os mais diversos tipos, desde adivinhos, profetas do futuro, leitores de mãos, malabaristas, contadores de histórias e encantadores de serpentes. Sim, diversas serpentes ficavam espalhadas pelo chão, com homens sentados ao seu lado soprando flautas. Ao anoitecer o perigo era se aproximar muito e pisar em alguma delas que caminhava tranquilamente pelo chão.

Cena frequente em Jemaa El Fna

Tudo isso, somado a centenas (ou talvez milhares) de pessoas de todas as cores e tipos, com dezenas de motos, bicicletas e motonetas passando entre as pessoas, e a noite chegando no coração da segunda maior cidade do Marrocos. Jantamos em um lindo restaurante local, e aproveitamos o fim da noite apreciando a singularidade daquela praça, patrimônio também da humanidade, com todas as suas sutilezas, cores e sons. No próximo e último dia da viagem faremos um passeio pelos principais pontos turísticos de Marrakesh, para aprender um pouco de sua história e beleza.